GRADUAÇÃO

Na minha sala tinham muitos homens e desde que iniciei sentia muito os olhares. Mesmo eu não sendo “a linda”, ficava muito constrangida. Uma vez, descobri que me achavam uma das garotas mais bonitas da turma… Aí então passei a fazer de tudo para não ser vista, não usava nada de feminino, bijuterias, maquiagens, salto, nada. Andava super simples e sempre pensava: “quanto mais feia melhor”.

O problema disso é que sou assim ainda até hoje, nunca mais me recuperei. Evito chamar a atenção de todas as maneiras. Acho que a sexualização que eu sofri naquela época enrustiu muito a minha personalidade e isso é gravíssimo. Não quero que as meninas de hoje passem por isso também. Passei a graduação inteira ouvindo piadas machistas! Bloqueei tanto o assunto, que nem me lembro mais dos exemplos.

14656270_1799502703606326_6150521052464723720_n

Meu orientador de monografia era um bom homem, querido e educado, arrumou um computador pra eu poder fazer meu TCC, pois meu PC era muito ruim e não dava conta do trabalho que eu precisava fazer. Mas uma vez, cheguei para usá-lo e estava com uma senha que antes não tinha. Então perguntei pra outro professor se alguém sabia a senha e ele respondeu: “não sei, mas deveria ser ‘tanque e fogão’”, pois só eu que utilizava aquele computador… Fiquei calada, porque era muito boba, mas fiquei super chateada.

Eu nunca era chamada pros grupos de estudos, pois a maioria tinha só meninos… eu sempre estudava sozinha. Passei a graduação inteira querendo trocar de curso, tinha a sensação de estar no lugar errado… Mas minha mãe sempre me incentivou e eu formei. Hoje trabalho na área e tento desconstruir esses pensamentos arraigados nos homens e também em algumas mulheres.

 

 

MESTRADO

Escolhi meu orientador por ele ter a fama de ser um ótimo professor pois, claro, queria um que me cobrasse, queria dar o melhor de mim. Amava estudar! Insisti muito pra ele me orientar então ele aceitou. Só que não percebi que no fundo, ele era machista.

Todo dia eu ia na sala dele e perguntava: “Prof., pode me atender hoje?”. Ele me atendeu raras vezes, foi então que percebi que já tinham se passado dois anos e eu não tinha meu tema definido! Comecei a perceber que ele atendia vários outros alunos homens de graduação e de mestrado que ele nem orientava!!! Mas para mim ele nunca tinha tempo… Isso fez-me sentir novamente muito sozinha e perdida, desamparada mesmo.

Passou muito tempo e eu não aguentava mais. Comecei a entrar em PÂNICO pois eu recebia bolsa e não tinha grana pra devolver caso não finalizasse o mestrado. Toda vez que eu via meu orientador passando eu começava a chorar… Gente, eu amava estudar! Mas aquilo pra mim foi ficando muito traumático. Anos depois, num encontro junto com outro professor finalmente foi definido o meu tema, o outro professor quem deu a ideia inclusive, a que eu mais me identifiquei.

Mas a partir daí eu não tive mais nenhuma ajuda por parte dos dois. Somente correções de texto. Agora me digam, correção de texto num mestrado é orientação? Fui para a defesa da tese com o maior medo de ser reprovada, não chamei nenhum dos meus colegas para não PASSAR VERGONHA. No fim, fui aprovada. Hoje isso parece muito óbvio que ia acontecer, mas na época eu estava completamente insegura porque não tive nenhuma orientação.

Eu sei que é ruim colocar a culpa toda no outro… Nós mulheres pecamos muito com essa nossa mania de perfeição (Veja esse TED talk incrível sobre Bravura e não Perfeição), muitas vezes nada compreendida pelos homens, mas o mais importante é que eu sei que tentei fazer o meu melhor. Talvez eu que não tenha correspondido às expectativas deles, mas nem mesmo assim, nada justifica o comportamento discriminatório que eu estava sofrendo.

Hoje sinto que não precisava passar por tanta humilhação… Perdi muito do gosto que tinha de estudar, e morro de medo de entrar no doutorado. Coisa que era um dos meus maiores sonhos, foi totalmente destruído.

sem-titulo

 

TRABALHO

Depois de muitos traumas eu formei na graduação e no mestrado na área de Computação. Mas inocentemente, não imaginava que mesmo após entrar no mercado de trabalho, ainda teria que continuar enfrentando atitudes podres de meus colegas de área, pois imaginava que eles teriam educação suficiente para não fazerem o que vou relatar agora.

Sou a única professora mulher dessa área num grupo de outros professores homens, numa instituição universitária. O protecionismo masculino já começa na sala dos professores, onde as mesas maiores são todas para eles e a minha ficou a menor, alocada perto da porta. Como mulher, traumatizada por um passado opressor, vocês sabem como é, eu já vi de cara nisso uma mensagem subliminar: “perto da porta! vai logo embora, mulher!”.

Mas tudo isso ficou bem claro quando começaram a fazer minha mesa de lixo. Também simplesmente colocaram a torradeira na minha mesa, sendo que seu lugar era em cima do frigobar, mas colocaram na minha mesa somente para me provocar. Claro que mandei pararem de jogar lixo na minha mesa e tirei imediatamente a torradeira dali, mas a provocação já tinha sido feita com sucesso. Começava a ficar impossível o respeito mútuo e a civilidade no ambiente de trabalho.

Depois, por várias vezes, eu chegava para trabalhar e tinha alunos na minha mesa, pois o professor não usava a mesa dele! Sendo que tinha uma mesa enorme, chamada mesa de reuniões, pois era para quê? Para as reuniões. Cansada disso tudo, descobri o professor que fazia isso, e pedi a ele que alocasse os alunos na mesa de reuniões e ele me colocou contra a turma, dizendo que eu não queria ele mais ali, e blá blá blá! Aquela velha retaliação que a gente sempre sofre quando tenta se manifestar contra as humilhações e discriminações que sofremos.

Também fazem reuniões sem a minha presença, ou seja, convocam e eu fico sabendo só depois! E assim segue minha vida, as alunas adolescentes percebem, os alunos percebem! Fico feliz por alguns alunos notarem. A direção já sabe e tenta tomar providências. Mas agora me digam, isso tudo é necessário? Toda essa imaturidade no ambiente de trabalho, como se a vida profissional de mestres universitários federais fosse um mero jardim de infância e eu tendo que deixar de focar no futuro desse país para me estressar gratuitamente com machistas acomodados e desocupados.

Até hoje ainda, toda vez que eu chego nunca tem cadeira na minha mesa, sempre pegam a minha propositadamente. Tem várias outras coisas também, mas tenho deixado pra lá na sua maioria, porque hoje essas picuinhas não me afetam tanto mais. O problema é a falta de respeito generalizada mesmo. Na verdade ali eles falam muito mal uns dos outros, a maioria tem uma essência ruim, que contamina o ambiente todo. Minha maior preocupação é quando essa postura negativa, essas ações pequenas e tacanhas, são passadas para os alunos. Então meu objetivo passa a ser tentar desconstruir essas atitudes erradas, essa má educação.

Sei que minha auto-estima sempre foi meio baixa, fiz muita terapia e estudo muito sobre o assunto. Hoje me considero muito melhor e mais preparada, mas ainda tenho muito o que aprender, pois como profissionais da área de exatas, não temos quase nenhuma formação humana.

A gente sempre fica dividido se seguimos em frente na nossa área ou mudamos de rumo! Penso muito em fazer meu doutorado sobre o machismo em TI.

15356491_595120467344778_8603501410036458525_n

 

3673781067522685860-account_id=1.jpg

Anúncios