MULHERES E CIÊNCIA: DESAFIOS E CONQUISTAS
por Marilia Gomes de Carvalho e Lindamir Salete Casagrande

TEXTO INTEGRAL:
https://periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/view/1807-1384.2011v8n2p20

DESAFIOS

Não são poucas as dificuldades que as mulheres vêm enfrentando para adentrar no mundo das ciências. Se pensarmos no início do surgimento do método científico ainda nos séculos XVI e XVII, pode-se perceber que poucos nomes femininos aparecem como representativos das cientistas. Isto não significa que elas não tiveram ou não tinham a capacidade de produzir conhecimento científico, mas este fato está relacionado ao contexto histórico-cultural da época.

Em primeiro lugar, o conhecimento que as mulheres produziam não era considerado científico, pelo simples fato de ser “feminino”. A medicina, por exemplo, sempre foi praticada por mulheres desde a antiguidade, mas a partir do século XIII surgem leis que as proíbem de praticá-la. (…) Apesar de não ser considerado científico o conhecimento das mulheres foi base para muitas pesquisas científicas (…).

Em segundo lugar, as mulheres eram proibidas de frequentar lugares públicos, entrar em bibliotecas, universidades, publicar resultados de suas pesquisas ou discutir em posição de igualdade sobre seus conhecimentos com os cientistas. Muitas produziam conhecimento em laboratórios dentro de seus lares e os resultados de seus estudos eram divulgados com nomes de seus irmãos, pais ou maridos ou algum outro representante masculino, pois aos homens era permitido produzir conhecimento científico. Algumas usaram pseudônimos masculinos para poder comunicar-se com outros cientistas, serem ouvidas e respeitadas. Outras foram criticadas, discriminadas, perseguidas, humilhadas por estarem transgredindo regras que eram rigidamente impostas às mulheres da época (SCHIEBINGER, 2001).

Mas a curiosidade humana, assim como sua criatividade é ilimitada e não obedece a barreiras e assim, as mulheres, como seres humanos que são também produziram conhecimento, apesar de muitas terem sido mantidas na invisibilidade. Casagrande et al (2004) enumeram algumas cientistas, especialmente na área das ciências da natureza e da matemática, que foram consideradas as pioneiras.

HIPÁTIA DE ALEXANDRIA, (370-415) viveu ainda na Grécia Antiga, desde criança recebeu de seu pai – o qual também era seu professor – educação em matemática e astronomia, sem descuidar-se da oratória e retórica, importantes na aceitação e integração das pessoas na sociedade da época. Conhecida por seu livro chamado “ALMAGESTO” e também por ser uma grande solucionadora de problemas. Gozava de grande renome, matemáticos escreviam-lhe pedindo uma solução e ela raramente os desapontava. Quando lhe perguntavam porque jamais se casara, respondia que já era casada com a verdade. Produziu conhecimentos em diferentes domínios, como era costume na época, desde a filosofia, astronomia, mecânica, matemática. Também desenvolveu alguns instrumentos usados na física e na astronomia, como o mapeamento dos corpos celestes e supostamente a invenção do hidrômetro. Nenhum trabalho escrito sobreviveu até o presente. Foi morta e esquartejada por questões políticas e religiosas.
(Veja o filme Ágora, sobre a história real de Hipátia de Alexandria)

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MADAME DU CHÂTELET (1706-1749), trabalhou com Voltaire em uma obra intitulada Eléments de la Philosophie de Newton, que reconheceu a autoria de Mme. du Châtelet apenas para o Rei, mas não publicamente, mantendo-a assim na invisibilidade.

SOPHIE GERMAIN (1776-1831), sofreu forte resistência da família para desenvolver seus estudos. Chegaram a cortar a luz e o aquecimento de seu quarto. Ela estudava com luz de velas e abrigava-se com cobertores. Disfarçou-se de homem para poder frequentar a Ècole Polythecnique de Paris e passou a corresponder-se com matemáticos utilizando-se de um pseudônimo masculino, M. le Blanc.

A escocesa MARY Fairfax Greig SOMERVILLE (1780-1872), encontrou dificuldades para adquirir os livros que necessitava para desenvolver seus estudos, pois mulheres não deveriam frequentar livrarias para comprar livros de matemática, além da oposição do pai que não concordava com seus interesses “masculinos”. Somerville recebeu da Sociedade Real Inglesa de Ciências uma homenagem na forma de um busto que foi exposto no hall do seu prédio. Devido ao preconceito da época ela jamais pode ver esta homenagem, pois era proibido às mulheres entrar naquela Sociedade Real.

HELEN BLANCHARD (1840-1922), nascida em Maine nos Estados Unidos, foi uma das maiores inventoras da era industrial muitas vezes citada como “Senhora Edison”, obteve no mínimo 28 patentes, das quais 22 tiveram a ver com máquina de costura, classificada entre as mais notáveis invenções mecânicas da época. Outras invenções notáveis por Blanchard é uma agulha cirúrgica e o apontador de lápis.

MARIE CURIE (1867-1934), foi a única mulher a ganhar por duas vezes o Prêmio Nobel. Trabalhou com o marido em pesquisas que os levaram à descoberta da radioatividade. O primeiro Prêmio Nobel em 1903 foi dividido com ele, porém não lhe foi dado sem resistências. Diziam que ele apenas a apresentou como parceira de pesquisa como sinal de seu amor. Recebeu pela segunda vez o Prêmio Nobel, em 1911, agora em Química, por ter isolado o rádio. Ainda assim, com todas estas realizações, Marie Curie não foi considerada uma das 100 personalidades mais influentes na história da humanidade na obra de Hart (2001) citado por Casagrande et al (2004). Ele considerou que seu trabalho foi importante, mais por ter sido realizado por uma mulher, do que pelas contribuições que trouxe à ciência. Apenas duas mulheres (rainhas) foram consideradas por ele personalidades importantes.

JOCELYN BELL BURNELL montou o rádio telescópio que detectou as primeiras estrelas de nêutrons, sendo dela a descoberta das quatro primeiras. As características não usuais desses objetos causaram tanta comoção que até o seu supervisor, Antony Hewish, desacreditou os dados. Bell Burnell defendeu sua tese em 1968 mesmo sem o apoio do seu orientadorEm 1974, Hewish divide o prêmio Nobel de física com Martin Ryle, ignorando as contribuições de Bell. O prêmio desse ano ficou conhecido como “No Bell”.  “Eu era a única mulher na minha turma. E toda a vez que eu entrava na sala de aula, meus colegas batiam os pés no chão até eu sentar.”, diz Jocelyn sobre sua graduação em Glasgow, Escócia, na década de 1960. “Era mais fácil me darem parabéns pelo meu noivado do que pela minha descoberta científica.”, diz Dra. Jocelyn sobre a época de seu doutorado na Universidade de Cambridge, Inglaterra. “Quando era jovem, eu não me considerava feminista. O meu feminismo surgiu ao longo dos anos. Agora, quanto mais velha eu fico, mais feminista também. Hoje eu sou GRRRR!!! feminista!”

 

Mais personalidades femininas das ciências exatas:

MILEVA MARIC (1874-1948), física e matemática sérvia, do Império Austro-Húngaro. Desde menina destacava-se por sua imensa inteligência. Era tão extraordinária que seu pai conseguiu uma permissão especial para estudar o ensino médio em 1892 numa escola particular 100% masculina de altíssimo nível. Única pessoa a tirar nota maior que Albert Einstein em Matemática no exame para a Escola Politécnica de Zurique em 1897 e única aluna mulher daquela Universidade na época. Einstein casou-se com ela e passou a publicar os artigos da esposa tendo que usar seu próprio nome. Tanto que ao ganhar o Prêmio Nobel em 1922, deu-lhe todo o dinheiro na tentativa de reparar sua grande dívida científica com Mileva. Tiveram 3 filhos e se separaram em 1914. Seu filho Hans disse que Mileva abandonou a vida científica com o casamento.

“… E se o trem fosse mais rápido que a velocidade de luz… O tempo era relativo ao espaço. Não era absoluto…” – Mileva Maric

GRACE HOPPER (1904), Amazing Grace, primeira PhD em Matemática (Universidade de Yale) e primeira almirante da marinha dos Estados Unidos, compôs a equipe de desenvolvimento do UNIVAC I (primeiro computador comercial, baseado no ENIAC), criou a linguagem de programação para o mundo de negócios, o Flow-Matic (o primeiro compilador e a base para o COBOL) e o termo “bug” para designar uma falha de código, ao retirar uma mariposa de dentro do computador resolvendo seu problema de funcionamento. “Eu tinha um compilador rodando e ninguém lhe tocava. Eles me diziam que computadores apenas podiam fazer aritmética”. Muito lembrada por sua luta pela igualdade das mulheres: “É mais fácil pedir perdão do que permissão”. Em 1998, recebeu a honra de ter seu nome em um navio da marinha americana.

Ainda sobre o ENIAC, devido a baixa de homens durante a 1a guerra para executar as tarefas de tecnologia, seis mulheres foram escolhidas para testá-lo quando foi desenvolvido. A “mera programação”, como diziam, sempre esteve a cargo de mulheres, porque trabalhar com cartões perfurados era para eles “muito parecido com digitação”. Eram chamadas de “Computers” (nome que depois foi repassado à própria máquina que operavam), mas nenhuma participou do aniversário de 50 anos do primeiro computador.

MARGARET HAMILTON (1936),  cunhou o termo “Engenharia de Software”, esteve à frente do software de orientação de bordo e desenvolveu o programa de voo usado no projeto Apollo 11, a primeira missão tripulada à Lua. O software de Hamilton impediu que o pouso na Lua fosse abortado.  Em 2014, uma foto dela ao lado da sua listagem de código possuindo a mesma estatura viralizou no Twitter.

“Devido a um erro na lista de comandos, o interruptor do radar de aproximação ficou na posição errada. Isso fez com que ele mandasse sinais errados para o computador. O resultado foi que o computador estava sendo requisitado a executar todas as suas funções normais para o pouso ao mesmo tempo que recebia uma carga extra de dados espúrios que usavam 15% do seu tempo. O computador (ou melhor, o software) foi inteligente o suficiente para reconhecer que estava sendo requisitado a executar mais tarefas do que devia. Então ele mandou um alarme, que queria dizer ao astronauta “Eu estou sobrecarregado com mais tarefas do que devia estar fazendo agora e vou manter só as tarefas mais importantes”… Na verdade, o computador foi programado para mais do que reconhecer condições de erro. Um conjunto completo de programas de recuperação estava incorporado no software. A ação do software, neste caso, foi eliminar tarefas de baixa prioridade e restabelecer as mais importantes… Se o computador não tivesse reconhecido esse problema e se recuperado, duvido que a Apolo 11 tivesse pousado na lua com sucesso.” — Margaret Hamilton

HEDY LAMMAR (1914-2000), atriz e “mãe do telefone celular“, durante a 2a guerra mundial co-inventou um sistema para os Estados Unidos que possibilitou todas as tecnologias de comunicação sem fio que conhecemos, base do CDMA e do Wi-Fi. Um sofisticado aparelho de interferência em rádio para despistar radares nazistas que patenteou em 1940 usando seu verdadeiro nome.  A ideia surgiu em frente a um dueto em um piano, repetindo notas em outra escala. Ou seja, mudando frequentemente o canal de comunicação, bastando que façam isso simultaneamente. Consistia na troca de 88 frequências que variavam no percurso entre emissor e receptor, mas recusada porque pareceu difícil de realizar na época. Não ganhou dinheiro com isso. Em 1998, a “Ottawa wireless technology” desenvolveu Wi-LAN, Inc. “adquirindo 49% da patente de Lammar”, seu co-fundador morrera em 1959. Recebeu menção honrosa do governo americano e foi inserida no National Inventors Hall of Fame.
Foi uma atriz e inventora austríaca que ficou conhecida por seus papéis em filmes durante os anos 1940. Principalmente por aparecer nua, correndo por entre folhagens, mergulhando em um lago e simulando um ato sexual com direito a closes do orgasmo. Foi casada 6 vezes. O primeiro marido, simpatizante do nazismo, milionário e ciumento, gastou uma fortuna na tentativa de readquirir e destruir cópias da película. Descreveu-o como um homem extremamente controlador, que tentava mantê-la trancada em sua mansão. Drogou-o e, com a ajuda de uma empregada, escapou para os Estados Unidos levando consigo todas as suas valiosas jóias.
Ganhou e gastou cerca de trinta milhões de dólares. Em 1991 foi detida por furtar medicamentos no valor de pouco mais de 20 dólares, em uma loja perto de Orlando na Flórida.

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Não foi somente até o século XVIII que as mulheres tiveram dificuldades para produzir conhecimentos científicos. A elas era proibido frequentar universidades em vários países do mundo ocidental. De acordo com Perez Sedeño (2011), apenas na segunda metade do século XIX e princípios do século XX passa a ocorrer o acesso delas aos estudos universitários. É claro que nestas condições de controle e barreiras para que pudessem produzir conhecimentos científicos, com inúmeros obstáculos que lhes eram impostos (o que nunca aconteceu ao universo masculino), a produção científica feminina teve um desenvolvimento tardio e algumas cientistas ficaram na invisibilidade até hoje.

O primeiro país a permitir o acesso de mulheres na universidade foi os EEUU, em 1834, na Suíça esta permissão ocorreu em 1860 e na França em 1880. (…) No Brasil a permissão para a entrada das mulheres na universidade se dá em 1879, sendo que em 1887 a primeira mulher, Rita Lobato Velho Lopes, recebe o grau de médica (SOBREIRA, 2006). Foi rompendo barreiras, sofrendo preconceitos e sendo discriminadas que as mulheres conseguiram pouco a pouco vencer, avançar e obter sucesso como cientistas. Mesmo assim, os feitos científicos realizados pelos homens, ainda hoje são mais valorizados pela sociedade e pelo meio acadêmico, do que aqueles realizados pelas mulheres.

A ciência foi uma construção social que se deu sob parâmetros considerados pela sociedade ocidental da época como masculinos, tais como a objetividade e a racionalidade. O rigor científico era considerado uma qualidade dos homens e, caso as mulheres a ele se dedicassem, poderiam sofrer conseqüências em sua saúde. É o caso relatado por Schwartz et al (2006) da primeira mulher a se dedicar à busca de conhecimentos que deram origem à informática, a inglesa Augusta Ada King, filha do poeta romântico e escandaloso Lord Byron, Lady ADA LOVELACE (1815-1852), cuja história está ligada à história de Charles Babbage e a sua máquina de calcular. Ela desenvolveu conceitos e estruturas semelhantes às estruturas utilizadas na programação da informática atual. Seu trabalho foi considerado o primeiro programa de computador da história, o primeiro algoritmo da computação em 1843, ligado a metodologia de cálculo de uma das sequências de números racionais de Bernoulli, cem anos antes do primeiro hardware ser construído. Tendo uma saúde frágil, Ada, a Condessa de Lovelace, esteve muitas vezes doente, sofrendo desmaios e paralisias, o que era considerado histeria. Ela mesma acreditava que a causa era o demasiado uso do intelecto e chegou a dizer que um dos ingredientes para suas crises era o excesso de matemática. (PLANT, 1999, citado por. SCHWARTZ et al, 2006).

Ada é considerada a primeira mulher programadora de computadores do mundo. Ela inventou inúmeras técnicas de programação, entre elas: o comando condicional IF-THEN; o conceito de tipos, operadores, matrizes e loops, assim como a utilização do sistema binário ao invés do decimal. Apesar de ter desenvolvido todo este conhecimento, ela dificilmente é citada por suas idéias, mas por ter sido ajudante de Babbage. Afastou-se de seus estudos de matemática para dedicar-se aos filhos, porém mesmo assim foi acusada de ter sido uma mãe negligente. (PLANT, 1999, citado por. SCHWARTZ et al, 2006). Seu trabalho só foi provado como correto muitos anos após seu falecimento, porque não haviam máquinas necessárias para realizar essa prova em 1843.

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Além destes desafios colocados para as mulheres cientistas na esfera pública, decorrentes da sociedade patriarcal e do código androcêntrico das ciências, aqui já discutidos, não se pode deixar de comentar uma questão de gênero bastante pertinente que interfere diretamente nas possibilidades das mulheres desenvolverem e produzirem conhecimentos científicos. Trata-se da divisão sexual do trabalho que estabelece o trabalho da esfera pública aos homens e os da esfera privada às mulheres. Quando elas deixaram suas casas e suas atividades domésticas para dedicarem-se à ciência foram criticadas e discriminadas por não estarem cumprindo seu papel de mulher estabelecido pela sociedade.

Lutando contra estes preconceitos, enfrentaram a dupla jornada de trabalho, pois se houve um movimento das mulheres para o mercado de trabalho e para a produção científica na esfera pública, não houve um movimento dos homens para dentro da esfera privada, no âmbito dos cuidados com os filhos, doentes, idosos e a realização dos trabalhos domésticos. Assim as condições e a qualidade do tempo do trabalho científico são diferentes para as mulheres e para os homens. Não é preciso nenhum esforço para perceber que as mulheres sofrem uma desvantagem nesta divisão do trabalho. Enquanto os homens têm tempo e dedicação integral à realização de suas pesquisas, as mulheres, principalmente as casadas, com filhos, não têm as mesmas possibilidades.

Por meio destes exemplos vê-se que muitas carreiras foram retardadas ou iniciadas tardiamente, em um ritmo mais lento, justamente por causa de questões familiares e de gênero, principalmente entre as cientistas de mais idade. As mais jovens possuem uma situação mais confortável com relação à divisão sexual de trabalho na família, pois muitas contam com o auxílio de seus companheiros, expressando uma nítida transformação nestes padrões.

(…) Nas culturas ocidentais as mulheres conquistaram espaço no mercado de trabalho e hoje estão presentes em inúmeras atividades, inclusive na ciência. Mas é importante ressaltar que esta conquista representou para elas um acúmulo de trabalho que os homens nunca enfrentaram.

Apesar de todas estas dificuldades e desafios encontrados pelas mulheres em suas carreiras científicas, é importante ressaltar que elas venceram muitas barreiras, resistiram e não se deixaram dominar por preconceitos e discriminações. Ao transgredirem as regras desta sociedade patriarcal e androcêntrica as mulheres cientistas conquistaram muitos espaços e foram abrindo caminhos para as futuras gerações. Não se pode mais dizer hoje que as mulheres não produzem ciência. O que ainda acontece, em algumas situações, é a invisibilidade em que as primeiras cientistas foram mantidas, e a dificuldade que as cientistas atuais encontram para se afirmarem e ascenderem no campo científico que ainda é dominado pelos homens.

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CONQUISTAS

Em se tratando das conquistas das mulheres na história da ciência, é importante mencionar o papel do movimento feminista que desde suas primeiras manifestações, a chamada primeira onda deste movimento, ainda no século XIX, vem lutando por melhores posições das mulheres na ciência. Este movimento tomou um maior vulto a partir dos anos 60 do século XX, quando houve grandes questionamentos a respeito das discriminações contra mulheres em várias dimensões da vida social, seja na família, no trabalho, na escola, na política, na tecnologia e também na ciência, além de outras.

Se considerarmos o momento atual em que vivemos podemos constatar que aquele passado sombrio para as mulheres que queriam produzir conhecimento científico já não existe mais. As universidades estão totalmente abertas a elas e hoje, em muitos países, o número de mulheres que frequentam os mais diferentes cursos é maior que o número de homens. É claro que nem todas as alunas serão cientistas, mas para o exercício do magistério superior há a exigência de produção científica, especialmente em cursos de pós-graduação, portanto a exigência de trabalhos científicos. Pode-se afirmar então que elas estão produzindo ciência.

(..) De acordo com Tavares (2008) as estudantes de doutorado nos dados retirados do Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisas) constituíam 54% no ano de 2006, isto é, mais da metade dos doutorandos. Porém dentre as pesquisadoras de nível 1 A (maior categoria estabelecida pelo CNPq para pesquisadores científicos) as cientistas eram somente 23%.

Estes dados não desmerecem as conquistas obtidas pelas mulheres nas ciências, mas mostram que ainda não se alcançou uma igualdade de gênero. No entanto o maior número de mulheres nas categorias menores de pesquisadoras nestes países pode significar que é uma questão de tempo o alcance da igualdade. Na medida em que estas mulheres ascendem em suas carreiras elas poderão representar a maioria, se for mantida a mesma proporção dos níveis atuais.

Outro fenômeno a ser destacado quando se fala em gênero e ciência na atualidade é a diferença de participação de homens e mulheres de acordo com as áreas de conhecimento. As pesquisas ibero-americanas todas coincidem com o fato de que as mulheres são a grande maioria nas ciências da saúde, educação e humanas, ou seja, nas áreas do cuidado, enquanto elas são minoria significativa nas ciências exatas. Na área tecnológica, especialmente nas engenharias, há um número bastante reduzido de mulheres.

Dados da universidade brasileira revelam que cursos como Pedagogia, Enfermagem, Nutrição apresentam de 80% a 90% de mulheres (…). Por outro lado, os cursos de Engenharia têm de 15% a 20% de mulheres. (CARVALHO, 2008). A área tecnológica é tida como um domínio masculino, especialmente após a revolução industrial e a consolidação do capitalismo, quando a tecnologia passa a ser o motor do aumento de produtividade e das inovações que estão diretamente relacionados à esfera pública, isto é, área considerada masculina. Tudo indica que esta relação entre os cursos “femininos” e os “masculinos” não se modificará na área da pesquisa, pois segundo Tavares (2008) os dados dos últimos cinco anos mostram que as áreas em que as mulheres são menos de 30% assim permaneceram, sem indícios de que haverá alguma mudança nesta realidade. O mesmo ocorre quando a área tem participação feminina superior a 70%. Este é um fenômeno que não ocorre só no Brasil, mas é um dado mundial.

Pesquisas sobre a participação das mulheres nas engenharias revelaram que as discriminações ainda ocorrem apesar das conquistas que elas fizeram também na área tecnológica. Investigações realizadas por pesquisadores e pesquisadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Relações de Gênero e Tecnologia – GeTec da UTFPR mostraram, sob várias facetas, como ocorre esta discriminação. Entre as estudantes dos cursos de Engenharia, por exemplo, há um estranhamento por parte de professores e alunos pela presença de jovens do sexo feminino que buscaram estes cursos. Há depoimentos destas alunas dizendo que seus próprios pais, em alguns casos, tentaram impedi-las de cursarem Engenharia por ser este um curso para homens.

Os resultados das pesquisas aqui citadas revelaram que para as mulheres serem bem sucedidas tanto nos cursos de Engenharias, como na vida profissional elas sofrem uma série de pressões. Por exemplo: sua competência é colocada sempre à prova, o que não acontece com engenheiros homens; seu esforço para angariar sucesso e respeito de colegas é sempre maior do que dos engenheiros ou dos estudantes destes cursos; há ainda as que, não suportando estas pressões, desistem ou do curso ou da profissão. Algumas engenheiras decidiram deixar de trabalhar na profissão para cursarem mestrado e doutorado e depois seguirem a carreira no Magistério Superior onde elas acreditam que as pressões sejam menores.

Enquanto estudantes elas sofrem o controle dos colegas, por exemplo, com relação às notas: há casos de colegas que competem com elas quanto ao rendimento nas avaliações e as ridicularizam quando nem sempre são bem sucedidas. Como profissionais as engenheiras são mais direcionadas para os cargos que as mantêm restritas à administração e escritório e dificilmente são direcionadas a trabalhar diretamente com a parte técnica. Em geral, seus salários são menores que de seus colegas que realizam o mesmo trabalho, apesar da existência de uma lei em nosso país que não permite discriminação de qualquer tipo.

(…) Considerando a trajetória das mulheres na ciência descrita aqui, aos examinarmos suas conquistas, pode-se dizer que mudanças ocorreram. Por outro lado, é possível afirmar também que certas mudanças culturais acontecem lentamente, principalmente quando estão associadas a relações e poder estabelecidas secularmente na sociedade.

(…) Resta saber se as conquistas femininas trarão alguma transformação na maneira de fazer ciência, nos objetos de pesquisas e nos paradigmas científicos.

Pyladies Teresina:
Meme ‘LUIZA,VOCÊ ESTÁ ATENTA?’ para explicar o passado da mulher na área de TI


Brasileiras na ciência

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