Queria começar declarando que considero Felipe Matos um grande embaixador homem da diversidade para as startups brasileiras, e que gostei demais deste artigo abaixo que ele escreveu:

Precisamos falar de diversidade nas startups
http://link.estadao.com.br/blogs/felipe-matos/precisamos-falar-de-diversidade-nas-startups/ 

Me lembro perfeitamente do piti que dei ao final do painel extremamente machista realizado na CASE desse ano: “Radiografia das startups do Brasil” (evento aliás nada diverso). E por isso eu já comecei gostando do artigo do Felipe desde sua introdução.

“Não é preciso muita sensibilidade para perceber que esse universo é predominante masculino e branco (…)”
“Se, no quadro geral, os dados mostram a presença de empreendedores em equilíbrio entre os gêneros, quando vamos para o empreendedorismo de alto valor agregado, como o de tecnologia, vemos uma realidade totalmente diferente. A mesma desproporção acontece em espaços de poder, como a política e o alto escalão de grandes empresas.”
“(…) com pesar, por constatar que, em pleno 2017, ainda tem muita gente que não entende a importância do tema. “

É o que eu digo por aí, quem não enxerga algo tão óbvio é porque propositadamente não o quer.  E sinceramente, é bem irritante para nós mulheres termos que ainda ficar lendo em artigos sobre diversidade, sentenças de nível tão básico como essas. Se estivéssemos lá pelo começo de 2015, até que ainda dava para ter calma, mas em pleno final de 2017… Mas vamos buscar por mais paciência em nosso âmago. Entendo, de certa forma, de onde Felipe está partindo. Se ele acredita que ainda hoje: “Algumas perguntas e discussões são necessárias para entendermos o problema”,  então vamos respeitar… Ainda mais porque não é qualquer pessoa que aceita largar o osso de seus privilégios sem uma blindagem bem forte, não é mesmo?

 “(…) a ausência de diversidade também torna invisíveis muitas oportunidades de negócios, que passam desapercebidas nas redações, governos, agências de publicidade e escritórios de startups e grandes empresas (…). A diversidade é, por definição, berçário criativo da inovação, que se traduz em melhor resultado para as empresas. “

Essa afirmação é bastante redundante também. Não há de fato nenhuma surpresa de que ela parta de homens brancos, porque para o indivíduo diverso isso faz parte normalmente do nosso dia a dia, é a realidade que enxergamos com muita clareza e sempre apostamos nela. Nunca precisamos de McKinsey nenhuma para nos informar sobre o que já somos. Mas quando alguém passa toda uma vida lidando somente com iguais, toda essa sabedoria realmente se perde… Então, ok, é positiva mesmo uma dica dita por um homem branco para os homens brancos.

Acrescento aqui até uma outra pesquisa que nós feministas já estamos divulgando por aí, que confirma que, se incluíssemos de volta todos os diversos no mercado de trabalho, a economia mundial ia crescer em trilhões! E não, não me lembro dos números exatos e nem dos dados perfeitamente corretos dessa pesquisa. Os machistas de plantão que se movam e comecem já a Googar a informação, como sempre fazem com tudo que nós mulheres falamos…

“Agora, tentando entender o problema, lembro-me que disseram no painel que participei que havia poucas mulheres em startups porque existiam poucas mulheres em cursos de tecnologia. Acho que essa resposta está longe de ser a raiz do problema. Afinal, por que há poucas mulheres na tecnologia e na alta gestão?”

Aiaiai… Vamos então voltar ao piti dado no painel. Essas afirmações altamente preconceituosas foram uns dos principais motivos da revolta. Tem tantos vieses nesse parágrafo acima que a preguiça que nos dá em replicá-lo é do tamanho do machismo embutido nisso tudo. Vamos parte por parte, então.

“Há poucas mulheres em startups”. Não, não há. Frase corrigida pela realidade óbvia: “Há raríssimas empreendedoras sendo refletidas pela mídia, pelas aceleradoras, pelas empresas de capital, pelos historiadores, pelos promotores de prêmios e reconhecimentos, etc.” E não estou com nem um pingo de paciência aqui para ficar divagando sobre a quantidade imensa de mulheres empreendedoras que todos vemos o tempo todo, todos os dias, em todos os lugares tanto no Brasil quanto no mundo todo… Repito, só não assume o óbvio quem propositadamente não o quer.

“Existem poucas mulheres em cursos de tecnologia”. Favor definir “cursos de tecnologia”. Para aqueles que estão mentalmente no século XXI, tecnologia está em tudo. Mas vamos entender que no contexto daquele painel fatídico, tecnologia seja traduzido como cursos de Engenharia e de Computação. Os mais deprimentes da atualidade.

Realmente esses cursos defasados, antiquados, arcaicos, misóginos, racistas, homofóbicos, doentios, etc, não possuem mesmo muitas mulheres os cursando. E as poucas que ingressam, em sua maioria, evadem correndo desse inferno. Jamais as condenaria. Eu só terminei o meu curso porque passei toda uma vida sendo abusada psicologicamente por ser mulher, sofrendo lavagens cerebrais diárias, tanto na escola, como em toda a parte, e não tive nenhuma condição psicológica de dizer não à toda a deseducação que eu sofri na faculdade, e até mesmo antes dela. Entrei na faculdade de Computação não sei nem o porquê, pois naquela década não havia nenhuma informação sobre o assunto, e depois que comecei não tive condições de abandoná-la por conta própria. Estava com depressão crônica, sem condições de tomar qualquer decisão muito drástica na minha vida. Ou seja, terminei aquela grande merda, que literalmente quase me matou, na marra.

Semana passada conheci mais uma mulher maravilhosa, de 17 anos, que estava abandonando a faculdade de Computação. Sim, abandonando aos 17, porque ela entrou aos 15… Uma dessas geninhas que eu já estou quase me acostumando a conhecer o tempo todo nos eventos de mulheres em tecnologia que participo praticamente toda semana (Sim! no Brasil!). Então, essa geninha maravilhosa, está vazando pra Alemanha, e fazendo exatamente o que eu tanto deveria ter feito na idade dela. Abandonado a perda de tempo da educação de “tecnologia” e ido cuidar da minha vida e da minha saúde mental.

Então quando eu ouço a sentença “Existem poucas mulheres em cursos de Engenharia e de Computação”, eu logo penso: “Ainda bem”. O que falta para nós mulheres espertas, agora, é só esperar o mundo perceber o fato óbvio de que um profissional será ainda muito mais experiente, preparado, saudável, etc, se ele simplesmente não tiver cursado um “curso de tecnologia” e ter usado todos esses melhores anos de sua vida em algo realmente relevante para a mundo da tecnologia. Machistas de plantão, novamente, se quiserem Googar aqui por seus grandes ídolos do mercado tech verão que muitos deles também não completaram ou nem cursaram faculdade.

Bom… Continuando com o parágrafo absurdamente preconceituoso em questão. Próxima parte: “Há poucas mulheres na tecnologia”… Afffff … 1… 2… 3… 4… 5… 6… 7… 8… 9… 10…
(pausa para inspirar o ar profundamente… depois soltar…)

Ok. Vamos lá. Nããããão, meus queridos… NÃÃÃÃÃO há poucas mulheres na tecnologia. Muito pelo contrário. Desde que nascemos, nós garotinhas somos mais curiosas, antenadas e amamos ciência e tecnologia ainda mais que os garotinhos. Para ser bem didática, e fazer uma analogia que até o machista entenderia: Tenta dar um fogãozinho a lenha de brinquedo para sua filha, sobrinha, filhinha de algum amigo seu, ou parente, ou whatever… E depois tenta dar o fogãozinho elétrico da Barbie, super moderno e tecnológico pra essa mesma garotinha e compare a reação que ela terá aos dois brinquedos.  É isso. Nós mulheres amamos tecnologia muito mais do que vocês possam imaginar. Vou nem ficar aqui falando da tecnologia astronômica usada em maquiagens, esmaltes, depilações a laser, produtos de cabelo, pele, beleza, medicina estética, sapatos, tecidos, moda, fitness, dietas, nutrição, etc, para não dar margem aos estigmas preconceituosos que os machistas adoram nos impor.

Nós amamos tanto produzir, quanto consumir tecnologia. Só que temos o nosso modo próprio de o fazer. Assim como todo e qualquer grupo diverso. Então por favor, machos brancos, não nos venham com essa que somos poucas mulheres na tecnologia, porque não somos. Não estamos participando das pesquisas pagas por vocês, não ganhamos os prêmios oferecidos por vocês para vocês mesmos, não somos reconhecidas por vocês e muito menos estamos nem na mídia e nem na história escrita por vocês. Mas estamos e sempre estivemos todas na tecnologia por inteiro, assim como todas as outras coisas que há no mundo.

E por fim: “Há poucas mulheres na alta gestão”. Essa parte também vou responder com um grande “Ainda bem”. Só olhar para como é a gestão do mundo capitalista de hoje. Quem quer ser a responsável por esse desastre globalizado?? Não estamos na gestão dessa decadência generalizada não, nem econômica, nem financeira, nem política, talvez em parte, apenas socialmente. Essa parte da equidade de gênero na gestão é tão complexa e está tão interligada em várias camadas do problema que vai ser difícil aqui de explicar sem desenhar.

Mas tentando resumir, é incrivelmente difícil sim para uma mulher se tornar gerente, diretora, chefe, presidenta, dona, etc, de qualquer coisa hoje nesse mundo machista capitalista que vocês construíram, mas tem um fator muito importante que está muito arraigado em nosso consciente e subconsciente feminino. A maioria das vezes, a verdade mesmo é que nós nem queremos. A grande maioria de nós mulheres, no final das contas, prioriza mesmo é a nossa própria qualidade de vida, a nossa família, os nossos filhos e a nós mesmas. Nada disso justifica o imenso desequilíbrio que existe na tomada de decisões no mundo, sim, concordo. Mas é uma junção de fatores, e o fato é que esse universo de poder não nos empatiza. Mutuamente.

Então fica difícil de conquistarmos uma conquista que no nosso mais profundo desejo, nós nem queremos o prêmio. O que gostaríamos mesmo que acontecesse é que tudo mudasse, que as coisas não fossem tão competitivas e hierárquicas como são, que as tomadas de decisão fossem muito mais colaborativas do que “meritocráticas”, e que não precisássemos de ser mandonas para fazermos todos parte de um processo decisório mais justo e igualitário.

Eu já tive cargos de alto escalão em minha vida e rapidamente caí fora dessa roubada, já bem no começo da minha carreira aprendi que não era isso que eu queria pra mim. Foi definitivamente a minha época mais infeliz profissionalmente. Então, concluindo, está tudo mesmo é de cabeça para baixo, ou do avesso, e sabemos que a solução para o capitalismo selvagem passa obviamente pela diversidade no mundo.

Mas nada disso tem nada a ver com equiparação salarial, hein? Não confundam, pelamor… Queremos remuneração justa sim!! Já tô até ouvindo machista mal-caráter aqui usando tudo isso como desculpa esfarrapada para explorar as mulheres e “justificar” seus salários maiores que os nossos.

“Vivemos numa sociedade majoritariamente patriarcal, que, historicamente, coloca a mulher em um papel submisso, ligado a cuidar do lar, da família e dos filhos, distanciando-a do mundo do trabalho. “

Nãããã…. Não é bem assim não. Nem sempre foi assim e nem sempre é assim. Muito menos isso é justificativa pra alguma coisa. Muito do problema está ligado às religiões, às condições de dependência financeira de mulheres mais frágeis psicologicamente, etc. E na verdade, os mesmos problemas machistas existem mesmo quando a mulher não é do lar coisa nenhuma, sustenta a casa inteira, não se submete a homem nenhum, nem mesmo assim ela está livre do preconceito, da diminuição, do machismo, da misoginia, da diferença salarial e de todo o resto.

 “A publicidade muitas vezes retrata mulheres como objetos sexuais, posição que é diariamente reforçada pela indústria da moda e da beleza.”

Taí uma coisa que está mudando muuuuuuuito rápido. Tá dando muito gosto de ver.

“Pense na criação das crianças. A menina é educada para ser princesa, brinca com bonecas e panelinhas. O menino, com carrinhos, foguetes e brinquedos de montar. Não é à toa que as engenharias estão cheias de homens. A falta de exemplos e os preconceitos desestimulam a entrada de mais mulheres em espaços ligados a tecnologia e alta gestão.”

Então, não… não é isso. Apesar desses fatos isoladamente serem verdade, essa é a correlação mais basicona que as pessoas fazem por aí mesmo. Mas já foi constatado que o desinteresse aparente do sexo feminino pelas ciências exatas acontece na adolescência e não na infância. Podem Googar aí à vontade. Quando chega a puberdade e a menina passa a se preocupar com a sua reputação social, ela então passa a reprimir todo o sentimento relacionado ao intelecto e foca em buscar formas de chamar atenção do sexo oposto para si. Rapidamente descobre que se fazendo de frágil e boba ela atiça muito mais os instintos de conquista e proteção dos meninos do que através da concorrência intelectual. Funciona super bem, acreditem.

Quando chega a hora de ter que escolher uma carreira profissional, o raciocínio já é outro. A mulher estatisticamente opta por cursos mais interessantes de se cursar, vamos combinar que as ciências exatas que são ensinadas nas escolas e faculdades são a forma mais chata de se fazer a coisa, não é mesmo?

Da mesma forma que a falta de modelos femininos nessa carreira desestimula a escolha da mulher justamente porque ela sabe o quanto vai ser um saco percorrer esse caminho da forma masculina de se fazer as coisas. Ela sabe que não vai dar pra fazer nada do jeito que ela gostaria que fosse feito. Muito melhor escolher outras áreas que têm maior empatia com a gente. Acho que só as mulheres que conseguem abstrair esse sentimento de repulsa, ou que dão mais valor ao que realmente ela poderá produzir na área de exatas custe o que custar, é que consegue estímulos para entrar na área e permanecer nela.

“E é claro que esse “papel feminino” é socialmente construído, nada tendo a ver com as reais capacidades ou limitações do gênero.”

Sim, sim. É beeeem claro isso. Bastante óbvio mesmo. (Inclusive é bom alguém avisar aquele ex-funcionário da Google sobre isso).

“E o que dizer dos negros? Vivemos no último país ocidental a abolir a escravidão e que, cinicamente, finge não ser racista. Aqui, a questão racial é também socioeconômica. No Brasil, existe uma correlação direta entre a cor da pele e a concentração de riqueza. Segundo o IPEA, em 2009, a renda média de negros no Brasil foi 77% inferior à dos brancos. Os negros são maioria nas comunidades periféricas e acabam mais expostos às mazelas da pobreza, (…)”

É exatamente por isso que eu não consigo suportar quando alguém profere qualquer discurso pró-meritocracia. Não dá mais para ter qualquer tipo de tolerância com gente que acredita que exista meritocracia no mundo. Tem que ser muito sem noção mesmo…

E por enquanto eu vou parar por aqui por que já está tarde pra mim. Tem todo o resto no artigo sobre as soluções de melhoria do problema que eu vou comentar em outro post porque aí sim tem muito mais a ser falado…

No mais, mesmo sabendo que não parece, eu agradeço muito a disponibilidade e o interesse do Felipe em levantar uma discussão tão relevante como essa. Deixo explícito que estaremos sempre muito contentes de fomentar discussões sobre esse nosso tema que tanto nos afeta e impacta.

Obrigada pelo artigo. Fique a vontade para continuar esse diálogo contando sempre com minha maior honestidade e boa intenção.

Grande abraço!

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