O professor era daqueles que todos os dias contava uma piada machista diferente, mesmo numa turma com 8 mulheres. Não perdia a chance de dizer para os alunos estudarem bastante, para poder ganhar dinheiro e ter mulher. Porque segundo as palavras dele: “Mulher gosta é de dinheiro!”.

A frente da minha sala era o lugar favorito de alguns alunos que escolhiam para fumar. Toda aula o professor tinha que ir até a porta chamá-los pra responder a presença e começar a aula, sempre em um tom muito amigável, fazendo o tipo “professor gente boa”. E até LITERALMENTE passava a mão na cabeça deles.

Eu nunca questionei as piadinhas 😦 . Mas me incomodava sim todos os dias escutar aquilo.

Um dia cheguei atrasada para a aula de Circuitos Digitais, que se iniciava as sete da manhã, e me sentei numa carteira no canto. No quadro já havia uma sequência de quadrados com uma seta para baixo e vi que no livro havia a mesma coisa, mas a seta estava para cima. Sem proferir nenhum som, eu virei para minha colega ao fundo e apontei o dedo para a setinha do livro com uma cara confusa. Percebi que ela também não estava entendendo e todos na sala também estavam em dúvida. Cientistas da computação mexem mais com software e às vezes ficamos um pouco perdidos com essa parte mais baixo nível da Engenharia.

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Mas o professor de repente começou a gritar comigo na frente de todos dizendo que eu estava atrapalhando a aula dele e que era para eu me RETIRAR DA SALA imediatamente.

Na mesma hora fiquei perplexa, sem entender exatamente o porque da reação tão extremista.

– Professor, nem falei nada. Apenas queria entender porque na imagem do quadro a seta está no sentido oposto ao da imagem do livro.
– Não importa! Você está me atrapalhando!
– Mas professor eu estou apenas confusa, só isso. Nem abri a minha boca.
Mas ele bufando reafirmou: – Saia já da minha sala!

Eu não tive escolha, tive que sair. Mas antes respondi:
– Ok, eu saio. Mas já entendi que a seta é o ciclo de clock que muda quando está em alta e faz a contagem pela transição positiva e no outro caso pela transição negativa quando está em baixa. Você estava falando sobre a base do flip-flop. Muito obrigada pela sua compreensão, “professor”!

E então não voltei mais.

Os alunos homens sempre conversavam a aula inteira e ele nunca falou nada. Muitos deles viviam procrastinando para tudo, mas eu nunca fui um deles. Juro que não estou manipulando essa história para me passar como vítima. Eu me lembro claramente desse dia. A camisa e a calça jeans que ele vestia, o quadro verde com o ciclo de clock desenhado… Tentei reclamar no departamento. Ninguém se importou. Tentei cancelar a disciplina. Não aceitaram. Eu que tive que pedir a desistência da matéria.

Depois ficam dizendo que não entendem porque as mulheres evadem tanto da área de tecnologia. É tão clara a diferença de rigor e tolerância com que mulheres e homens são tratados em nossa sociedade… Esta aí a explicação para quem quiser ver. Essa sensação de injustiça e preconceito é o que sentimos e convivemos todos os dias. Só não enxerga quem não quer.


Como as universidades brasileiras abafam os casos de assédio sexual

 

A academia e o tapinha nas costas

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