O chefe do departamento de Ciência da Computação da universidade lá em Nova York, nos Estados Unidos, selecionou os melhores alunos da nossa turma de intercâmbio e disse que tinha uma ótima vaga de estágio para oferecer, com um cara que havia trabalhado em Wall Street e tudo.

Todos nós acreditamos, é claro. A entrevista foi pelo Skype, com as definições de cargos e de que o trabalho seria remoto com reuniões semanais. Eu já logo disse para os outros colegas: “Galera, eu preciso de férias, para mim tem que ser no máximo 6 horas diárias e por 8 semanas”. O estágio era SEM remuneração e essa era a mínima carga horária que a agência reguladora do intercâmbio exigia.

Mas um dos colegas mais puxa-saco foi contar para o cara da entrevista que o estágio poderia ser de 8 horas diárias e por 12 semanas. Falou até os valores que ganharíamos pela bolsa de intercâmbio durante esse período (o que não dá nem para sobreviver, muito menos remunerar o trabalho).

Resultado: o contrato saiu como 40 horas semanais, por 12 semanas. Quem não quer trabalho escravo regulamentado, não é mesmo???

Pelo menos o trabalho era remoto lá em Nova York mesmo, e eu seria gerente. Pensei, ok, dá para organizar no final das contas.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas. O cara, um indiano, na verdade, não tinha uma empresa. A empresa era ele! Não havia nem escritório. De novo pensei, ok, o trabalho é remoto mesmo…

Mas aí ele começou a mudar tudo. Decidiu que agora iríamos trabalhar sobre a supervisão dele todos os dias, não mais reuniões semanais.

Oito horas com um cara te encarando. Oito horas programando. Sem nem uma cadeira confortável. Ficávamos trabalhando na cafeteria do prédio onde estávamos morando! E ele todos os dias sempre ligava só para mim, para assinar a entrada dele no prédio. Agora imagina acordar com a voz do seu chefe todos os dias… Dei graças a Deus quando meu celular foi roubado…

E o machismo? Era só o que estava faltando né? Mas não teve jeito, para a minha “sorte”, ele veio com tudo.

Primeira semana findada, projeto a ser trabalhado todo definido, fiz então a reunião com a equipe, e iniciei meu trabalho de gestão. Definimos métodos e modelos de desenvolvimento, frameworks, divisão de trabalho, calendário, etc.  Mas daí precisávamos de uma reunião com o stakeholder para discutir os detalhes. Já queriam que nós fizéssemos o site sem framework e tal…

Eu avisei que precisávamos de reunião. E ele, o dono, só enrolando porque estava viajando. E decidindo remotamente coisas de qualquer jeito, mais retrógradas, desatualizadas. A equipe olhando pra mim com aquela cara do tipo: HELP!! E eu falei então mais uma vez: “Olha, a gente precisa definir coisas como o modelo de desenvolvimento por exemplo. Vocês preferem que a gente use o que?” Ele já logo se alterou e começou a dizer que startup é caótico mesmo, que a gente é muito novo, que não entende nada… Muito alterado.

Mas outro dia ele chamou um consultor e foi fazendo perguntas para ele. Sério, as perguntas eram exatamente a pauta da reunião que ele não quis ter comigo e com a equipe!! Eu tinha todas as respostas, mas fiquei calada.

O consultor perguntou então a um dos desenvolvedores da equipe o que ele fazia, qual a parte dele no projeto. Escutou atentamente a resposta e fez o mesmo com o outro desenvolvedor. E então terminou e voltou a conversar com o dono da empresa. Oi?!?!? Você não quer saber o que EU faço?!?!?!? Dei uma pequena raspada na garganta e chamei a atenção do consultor que estava sentado DE FRENTE a mim. Ele respondeu: “Ah, eu não te vi… Então, o que você faz mesmo?”

Já quando comecei a responder, ele virou a cara! Começou a rir debochado e conversar com o chefe, me ignorando descaradamente… Eu então me calei… Já puta, sabendo da cilada que tinha entrado.

Com o tempo eu já não podia mais nem me levantar para esticar as costas que o dono já perguntava se eu tinha terminado o serviço. A mim, só dava tarefas sem nenhum grau de dificuldade que não me acrescentava em nada. Mas aos outros desenvolvedores homens, era toda a arquitetura da nuvem da Amazon, por exemplo, e outras coisas mais interessantes. Isso porque de todos ali, quem tinha maior experiência e conhecimento era eu! Fora quando ele me repassava as mesmas coisas que os outros desenvolvedores para então depois mandar eu ir procurar outra coisa para fazer.

Mas o pior vem agora. O ápice foi o dia que ele chegou com uma sacola de uvas. Colocou na minha frente e disse: “Tem que lavar”. Na primeira vez que ele fez isso eu estranhei, mas imaginei que na verdade eu não havia entendido direito o que ele queria dizer. Fui, lavei as uvas, servi a todos. Mas no outro dia ele fez a mesma coisa. Dessa vez, eu respondi obviamente: “Não, obrigada. Não quero uvas”. Ele se segurou, mas quando deu lá para o meio do dia então, ele levantou todo irritadinho, e falando de modo agressivo para mim que ELE MESMO iria lavar as uvas!! Ah, e colocando apenas um punhado de uvas só para ele na mão. Eu nem lembro ao certo de todas as palavras dele. Meu cérebro nem acreditava no que eu estava tendo que ouvir. Ele jamais pediu a um dos homens para lavar as uvas, muito menos me servi-las… Será que na Índia é assim?

Esses três meses me esgotaram por completo. Todos os meus sonhos de intercâmbio no exterior foram por água abaixo. Era trabalho escravo e desinteressante sobre supervisão constante das nove da manhã as seis da tarde.

Até no almoço aquele carrasco estava presente. Tinha que cozinhar minha própria comida todos os dias porque tive problema de estômago. Cozinha compartilhada, o maior trabalho para conseguir cozinhar, comer e limpar tudo em apenas uma hora, compartilhando com todo mundo. Com tanto estresse, a tendinite voltou. A inversão na coluna piorou. Muita alergia ao pólen. Ele falava, “Nossa, você está doente… Toma um remédio!”. Se eu atrasasse qualquer coisa, ele já ia bater na porta do meu quarto! Ou mandar alguém até lá. Completamente invasivo! Abusivo! Desrespeitoso.

E a maior revolta era que ainda por cima ERA DE GRAÇA!! Estava tão deprimida que só conseguia dormir após o dia de trabalho. E como não ganhava dinheiro no estágio, também não podia nem passear nem viajar.

Pelo menos nos Estados Unidos o assédio sexual não é aceitável. As leis são bem mais punitivas e seguidas. Logo, há o isolamento dos homens de não conversarem com você, seja por ser mulher, ou estrangeira, ou intercambista, sei lá… Mas você não escuta piadinhas machistas com a frequência daqui. Lá nenhum professor jamais falou qualquer coisa sexista.

Ao todo o meu intercâmbio do Ciência sem Fronteiras durou mais de um ano. Tive que fazer aulas de inglês, durante as férias de verão tivemos que fazer o estágio e depois das férias voltei para finalmente fazer as aulas acadêmicas que eu queria fazer. Em um projeto de grupo que tivemos na faculdade de lá, no qual eu liderei, jamais tive algum problema machista. Foi uma relação bem saudável e agradável. Algo que nunca havia experimentado no Brasil. Aqui, mesmo quando o que você esteja dizendo seja correto, não é válido até que um homem diga a mesma coisa. Só assim vira uma boa ideia.

Anúncios