Certa vez estava lanchando com um grupo de amigos da minha faculdade de T.I. e um deles mencionou que as mulheres não são boas programadoras pois são todas “histéricas” e não saberiam nunca tomar uma decisão correta e calmamente.

Sempre fico indignado com essas afirmações machistas pois tenho mãe e irmã e me coloco no lugar delas. Mas não fiz nada. Sempre quando sai comentários assim, é rodinha só de “homens”. A maioria ri, outros concordam e acrescentam algo, outros não esboçam reação e o grupo segue para outro assunto como se não fosse nada.  Eu preferia não gerar atrito com meu grupo de colegas de faculdade, pois sempre andava com as mesmas pessoas.

T.I. é um lugar muito machista. Olham para as mulheres como um pedaço de carne. Por ser um instituto com a maioria de “homens”, quando vêem uma mulher, ficam comentando, julgando, comentários bem pesados mesmo. Dá até vergonha de falar isso, mas tem que ser exposto e eu quero ajudar o máximo que puder, as pessoas têm que saber:  “Nossa! Essa, pelada, deve ser linda…”. E referem ao órgão sexual delas: “Rosadinha”, “Pretinha”. “Ah, essa deve ter estrias”, “Essa tem cara de vagabunda”, coisas do tipo, bem pesadas.

Eu mesmo nunca levei minha irmã para conhecer a faculdade quando estudava lá. Agora que ela é vestibulanda, eu torço para ela não passar para TI.

Também zoavam muito das professoras. Por uma não usar sutiã e estar de “farol acesso”, outra falavam que se colocar o travesseiro no rosto até dava para comer. Já a outra era “Perfeita, muito gostosa, pegava toda hora.”. Essas coisas que a gente sempre ouve nos filmes. Eles só copiavam. Para toda professora mulher que passava pela turma haviam comentários. Eu rezava para elas escutarem só para ver a confusão, mas nunca escutavam.

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E sem contar que os “amigos” que não entram no jogo são taxados de gay, de “virjão”. Eles simplesmente ainda não entendem que esse papo de moleque não agrada aos homens de verdade.

Eu já tinha meus próprios problemas com eles, e eram muitos. Meus “amigos” me zoavam que eu não era capaz de me formar, principalmente porque eu não tinha o tipo nerd como eles. Não gosto de Star Wars por exemplo.

Além de existir uma briga ridícula. Que o curso de Sistemas de Informação é para os fracos por ser o mais fácil de todos os de T.I. e que a Ciência da Computação e a Engenharia de Software é para as pessoas com o Q.I. mais alto. Tem dó!

Também sou do interior, ia pra faculdade com as roupas do estilo caipira, usava bota e calça jeans. Fora o jeito de falar. Resultado: muito mais zoação ainda. Falavam que meu lugar era na agronomia. Por isso que se eu falasse algo, seria mais taxado ainda. Pra tudo tem um rótulo e pra mim já bastava ser o roceiro. Outro rótulo não dava mais.

Presenciei muito racismo também. Ao entrar no laboratório com um amigo de aparência afro falavam alto: “Cotas é pra lá!”. Sem contar os que compactuam com os ideais de Bolsonaro, espalham o ódio e julgam as pessoas o tempo todo: “Preto é bandido! E bandido bom é bandido morto.”.

Eu entrei no curso de T.I. por oportunidade e convite inclusive de uma mulher! Uma ótima pessoa, com o coração muito bom. Ela sempre me falou muito bem do curso, que as matérias eram super legais e eu gostava muito do meu PC. Então eu achei que iria gostar porque envolvia muito o computador. E acabei escolhendo T.I., na dúvida de vestibulando.

Mas desde o início já não gostei. Apesar de adorar programar, o que é a base do curso, e de ficar feliz quando meu código roda e de ser muito gratificante, as didáticas utilizadas são péssimas, os professores na verdade acham que somos auto didatas e que eles estão ali apenas para “consulta”. Nos sobrecarregavam com listas de código e não ensinavam nada. Não sabia nem por onde começar. Tentei fazer uma disciplina três vezes, na terceira desisti. De um “Hello World” pulavam pra um “Vector”. Não dava conta de acompanhar,  então na verdade nem sei do que não gostei no curso.

Fui procurando outras coisas. Gostei muito quando fiz uma matéria de Direito. Já não era muito a fim de T.I., mas no final me contrariei tanto que resolvi abandonar. Então juntei o útil ao agradável.

No Direito tem muita mulher. Um comentário machista e o cara está ferrado. Alguma vai sempre escutar e com certeza vai retrucar. Jogar na cara que o comentário é sexista e “pagar aquele sapo”. Uma vez vi uma moça reclamando para um amigo que um outro rapaz da sala disse que ela se aproveitava dele para pegar os trabalhos, provas, etc. Foi a maior confusão, ela não deixou pra lá não. Foi atrás de esclarecer a conversa.

Eu mesmo quando era aluno de T.I., já fiz isso, falava besteiras. Mas só percebi as merdas que fazia (desculpe o palavrão) quando entrei no Direito.

E hoje estou feliz. No Direito é bem mais igual, me sinto mais à vontade, e vejo mais retorno. Quando a galera reclama de alguma coisa sempre há resultado, muito diferente de T.I.. Tudo tem uma discussão mais ampla e profunda. A Filosofia, a Sociologia, no Direito vemos tudo isso, estudamos as classes sociais, seus motivos, etc. Pensamos antes de falar algo.

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